segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Associações, lembranças e reencontros

Passei o fim de semana inteiro lendo “O último trem para Hiroshima”, livro polêmico que foi recolhido de livrarias norte-americanas após ter sido descoberto que um dos entrevistados mentiu em seu depoimento, o que levou a uma série de mudanças na obra. Mesmo assim, não vi maiores prejuízos à história, que prende e horroriza ao mesmo tempo. Prova disso é que passei o sábado e o domingo lendo, só mudando da cama para o sofá da sala e vice-versa. A certa altura, quando foi mencionado pela primeira vez o imperador do Japão, Hiroíto, acendeu-se um lampejo de memória na minha cabeça: “acho que tenho um livro sobre ele...” Larguei tudo e fui esquartejar as estantes, e o interessante é que eu quase recordava até do desenho da lombada da obra, mas não lembrava de ter lido um livro sobre ele. Lembrava sim (tanto que achei) do livro “Hiroshima”, de John Hersey. Mas enfim, após uns 15 minutos de garimpo, constatei que não estava louca e achei o livro “Hiroíto – Por trás da lenda”, de Edward Behr, comodamente instalado, juntamente com todos cujos autores começam com a letra “B”.
Mas o detalhe mais interessante: não li esse livro. Datei-o em 1991, ou seja, exatos 20 anos atrás, e não o li. Só fui lembrar da sua existência lendo outro livro com associação óbvia. Resultado: tirei-o da estante e pousei-o no alto de uma das pilhas de espera, pensativa ante a possibilidade de haver mais opções não lidas na estante. Afinal, essa é a regra: somente vão para lá os que eu já liberei. De qualquer sorte, estranhei a lembrança da mesma forma que estranhei a associação. De 1991 para cá incontáveis livros passaram pelas minhas mãos e me descubro levemente desmemoriada (outro dia, no aeroporto, comprei para ler durante o vôo um livro que já tinha; só o reconheci ao começar a desbravar as primeiras páginas), será que isso é normal? Depois dessa, creio que é uma boa ideia repassar as prateleiras em busca de não lidos, em um verdadeiro garimpo literário pessoal.
E sendo absolutamente Poliana, não deixa de ser interessante tanto esquecimento. Assim nunca me faltará o que ler, bastará atacar os “esquecidos”.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Lendo no trabalho


Mesmo com o pouco – quase nada – tempo para isso, sempre tenho aqui no trabalho um livro para ler nas horas de trégua e nos momento que chamo de “abuso”, leia-se: saco cheio. Por isso é sempre a obra de leitura mais lenta entre todas da minha vida. Estou desde março com “A biografia de Alice B. Toklas”, de Gertrude Stein me desafiando. Leio alguns parágrafos todos os dias e hoje vi que estou finalmente me aproximando do final. Essa leitura entrecortada não atrapalha a compreensão e assimilação do texto, mas admito que é meio estranho. Por isso não pode ser qualquer livro mesmo. O ideal seriam crônicas e contos, mas como não tenho compromisso com a coerência (pelo menos nesse departamento) a tendência é que eu enfie os pés pelas mãos na escolha do próximo. Aqui no trabalho já li as fábulas de Esopo, contos do meu ídolo Scott Fitzgerald (recomendo muito, por sinal) e outros que já nem lembro. De qualquer forma, estimulada pelo sol da primavera e do azul do mar que enxergo da minha janela, combinei um café com amigos hoje após o almoço. Sou capaz de dar uma paradinha na praça e ler mais um capítulo para fazer tempo...
A foto é da vista que tenho da minha janela do escritório, mais ou menos neste ângulo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Almoço literário




Já vai longe a época em que eu conseguia sair do escritório para almoçar todos os dias. Houve um tempo em que eu até encontrava amigos para o tradicional cafezinho pós-refeição e ficávamos às gargalhadas, renovando-nos para uma tarde de trabalho. Hoje, mesmo sabendo que é errado, geralmente como qualquer coisa em frente ao computador e considero intervalo para almoço aquele em que não atendo ao telefone – o fixo, claro – do meio dia às 13h30min. E é só. Mas hoje me rebelei. Desci, atravessei o calçadão e entrei na livraria em frente, que tem três andares de tentações e onde eu compro até livros de culinária e muitos, muitos outros mais. Fui direto até o terceiro andar, sentei comodamente em uma poltrona (trocaram o modelo, achei pouco confortável o atual) e li orelhas, contracapas e página internas de muitos. Peguei vários para consultar o preço e permiti que a tentação sussurrasse para mim. Mas o anjinho que fica do lado direito do ombro lembrava-me o tempo todo: “Você não vai ler tão cedo; deixe aí; coloque na lista”. Moral da história: deu empate: saí de lá carregando um – mas apenas um! – “John Steinbeck e Robert Capa: Diário russo”. Adorei a resenha, adorei o que li lá dentro e amo Steinbeck. Mas o anjinho tem razão, sabe-se lá quando vou ler....

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Também aceito.......

Às vezes me pego pensando na importância que a leitura tem na minha vida e se isso é decorrente do fato de eu ter estudado muito e hoje trabalhar de forma estreitamente ligada às letras. Chego a me perguntar se a minha educação em casa tivesse sido outra, ou se os meus caminhos profissionais tivessem enveredado por outra área, eu teria desenvolvido e alimentado essa paixão que há muito se tornou um vício. Nada mais do que caraminholas, provavelmente jamais chegarei a uma conclusão e creio mesmo que isso nem mesmo é importante.
Todo esse nariz de cera é para contar que andando hoje pela rua, apressada como sempre e atrasada para uma reunião de trabalho, passei por uma parte do centro da cidade a que raramente vou. Já sem fôlego pelo meu quase correr, bati os olhos em uma pessoa sentada em um degrau que contorna um prédio comercial. Com as pernas estendidas, creio que até aproveitando o sol da manhã após tanta chuva, vi que, além de cabelos grisalhos, as barbas compridas eram brancas, o que me impediria de avaliar melhor a idade do homem – certamente mais de 60 anos – se eu tivesse me detido mais nos detalhes. Não reparei se ele estava vendendo algo ou pedindo esmolas simplesmente, mas já me afastando, vi um pequeno cartaz pregado por ele na parede ao lado onde estava escorado: “aceito livros de literatura”.
Se coração saísse do lugar, o meu certamente teria caído aos meus pés naquele momento. Sou uma sentimental, raramente nego esmola a quem me pede diretamente e – errada ou não, provavelmente sim – sinto-me incapaz de recusar uns trocados que podem tanto ser trocados por comida, passagem de volta para casa ou sabe-se lá o quê. Se o que dou é utilizado para coisas que eu não aprovo, prefiro pensar que dei de bom coração e com a mais firme intenção de ajudar (alguns meses atrás, um homem chorou na minha frente quando, condoída pela história que me contava, dei-lhe dez reais).
Enfim, hoje, correndo pelo centro rumo a um compromisso para o qual estava roxa de tão atrasada, não pude deixar de fantasiar sobre aquele homem que aceitava “livros de literatura” e gosto de pensar que ele, ali sentado naquela esquina, pedia algo para lhe aquecer a alma. E que eu, sempre tão coração mole na hora da esmola, não podia lhe dar naquele momento. Sou capaz de voltar ali amanhã e deixar alguns livros que, espero, façam-lhe companhia. Se ele os vender, sem problemas, só fico sonhando que os leia.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Livros e testamentos

A última vez que vi meu avô com vida foi cerca de uma semana antes dele morrer, dois dias antes dos meus 15 anos. Eu já devia saber que sou péssima em despedidas, pois tivemos uma briga. Ele disse que não me emprestaria mais livros porque eu era muito descuidada com eles. Lembro das palavras: “cada livro que você leva, volta um farrapo”, no seu fortíssimo sotaque alemão. Puxei a mão que ele segurava, emburrada com o que classifiquei imediatamente como injustiça. Hoje, ao ler as notas neste blog, vejo que ele estava coberto de razão, sou descuidada mesmo. E isso me lembra um texto que vi outro dia na internet, falando mais ou menos sobre como reagiríamos se soubéssemos quando estamos vendo alguém pela última vez. Certamente eu falaria com ele com um tom muito diferente, no mínimo saindo da defensiva. Algum tempo depois, quando a casa dos meus avós foi “desmanchada”, minha mãe não quis que eu ficasse com os livros. Não sei porque, mas não discuti ou argumentei em contrário. Hoje, em retrospectiva, acho que foi como se eu desse razão ao meu avô pelo meu desleixo e castiguei-me sozinha. Mas pensando bem, acho que ele adoraria que alguém que amasse os livros tanto quanto ele acolhesse os exemplares que deixou. Nunca soube – e nem quis saber para não doer ainda mais – o que foi feito daquele móvel com portas de vidro, atulhado de livros que sequer cheguei a pegar. A imagem daquela estante vem à minha mente cada vez que me deparo com algo parecido. Ainda terei um móvel daqueles na minha casa.
Agora fico pensando: o que acontecerá com os meus, quando eu me for? Minha afilhada fala sempre – meio a sério, meio brincando – que deseja herdar meus livros. Acho que preciso fazer um testamento...

sábado, 10 de setembro de 2011

Um papo com o meu autor favorito


Até hoje não encontrei justificativa válida para o meu apego a determinados livros. Tenho verdadeiros campeões de releituras. E quando falo em campeão de releituras, falo em vinte, trinta vezes, que peguei o livro novamente. Talvez algum psicólogo tenha uma boa explicação para isso, mas alguns eu chego a saber trechos de cor. Certa vez, confrontada pela dúvida de um amigo, recitei todo o primeiro parágrafo de “Um certo capitão Rodrigo”, que faz parte da trilogia “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo, favorito absoluto da minha estante e que peguei pela primeira vez na adolescência, totalmente fora de ordem, e que somente li completo, na sequência, lá pelos 18 anos. Nasci na mesma cidade que Érico – Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul – e na adolescência morei próximo à casa em que ele nasceu e cresceu, e da casa dos seus avós, ao lado, transformada em uma modesta biblioteca, a qual muito frequentei, descobrindo ali autores citados por Érico Veríssimo em seus livros.

Falo tudo isso porque há alguns dias, numa pausa necessária (necessária porque eu acho, não porque efetivamente seja) nos livros à espera, parei em frente à estante procurando uma releitura e me vi pegando o primeiro tomo de “O retrato”, a segunda parte da trilogia “O tempo e o vento”. Deste também sei trechos de cor, o que não diminui o encanto e o brilho da leitura. Muito manuseados, os livros têm páginas soltas, sobrecapa em papel pardo e plástico, acusando os anos de pega-e-larga. Como já disse, não sei e nem procuro explicação para tanto apego, além de uma profunda identificação com o autor que não se repete com o filho de mesmo sobrenome. Gosto de pensar que este seria um escritor de quem eu seria amiga e que lamento muito não ter tido a oportunidade de conhecer pessoalmente. Se é que existe vida após a morte, Érico Veríssimo seria disparado o meu escolhido para bater papo e falar sobre livros.

A mesma foto que ilustra este post está em um porta retratos no meu aparador que abriga os livros sobre livros que tenho em casa.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Capas e cupins





Sou a primeira a admitir que amo os livros, mas não sou exatamente a pessoa mais cuidadosa do mundo com eles. E como os manuseio bastante e leio em qualquer lugar e circunstância (levo-os na bolsa e isso detona qualquer exemplar), tenho alguns livros bem acabadinhos. E o que faço então? Encapo-os com plástico bem grosso, na impressão de que isso os protege. Já me disseram que é péssima ideia, que com isso o livro não “respira” e outras coisas mais que nem lembro, não devo ter prestado atenção. Não quero que pensem aqui que sou descuidada a ponto de ser relapsa, nada disso. Eu só sou uma leitora passional e às vezes o amor é meio bruto mesmo. Aliás, respirando ou não, eu já fui salva por uma capa de plástico quando, há vários anos, bateu uma nuvem de cupins na minha antiga estante de madeira. Depois de um ataque de horror e de livrar-me imediatamente do móvel, paguei um extra à faxineira para olhar livro por livro e certificar-se de que nenhum deles tinha sido atacado pelos bichos miseráveis. Após todos terem sido esmiuçados, apenas um estava literalmente infestado, justamente um dos encapados com plástico grosso, o que impediu que os cupins pulassem para os vizinhos. De sorte que continuo encapando. Eles podem não respirar, mas eu me sinto mais segura assim e nem imagino o porquê.


Depois do ataque de cupins, meus livros ficaram durante anos em estante de metal, primeiro porque eu morria de medo de que se repetisse o ataque e segundo porque foi o que deu para pagar na época, numa solução emergencial que se estendeu por longo tempo até eu mandar fazer um móvel sob medida.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Um mês de presente




Graças a uma hepatite aos 14 anos, “ganhei” do médico 32 dias de absoluto repouso, ou seja, cama. E dela só podia sair para ir ao banheiro. Foi mais de um mês sem escola, amigas, visitas e até um mísero passeio de carro. Naquela época não era comum criança ou adolescente ter tevê ou telefone no quarto e lógico que computador era só coisa de filme de ficção científica. E o que eu fiz naquele mês que hoje considero dourado? Li. Quando não estava dormindo (ou tomando banho) eu estava lendo e ataquei tudo o que foi possível. Além das coleções que tínhamos em casa, minha mãe trazia livros da biblioteca da escola onde ela dava aulas, meu irmão conseguia gibis com os amigos e meu avô contribuía com empréstimos nacionais da sua estante quase só em alemão.
Eu já devia ter o hábito de reler, não acredito que tenha vindo dali, mas reli quase tudo mais de uma vez, só não estudei mesmo, era só o que faltava! Não lembro daqueles dias como tediosos, pelo contrário, lembro da tranquilidade, do silêncio da casa, do calorzinho sob os cobertores (era setembro, em uma época que setembro ainda era sinônimo de inverno), do enorme vidro de balas e doces abastecido pelo meu pai e das pilhas de livros e revistas ao meu redor. Quase o paraíso.
Excetuando umas gripezinhas que mal conseguem me manter um dia longe do trabalho, nunca mais precisei ficar de molho dessa forma e lógico que nem o desejo (sai, satanás!), mas hoje, vendo a chuva que castiga Florianópolis há dois dias e o frio que obriga a vestir um casaco sobre o outro, lembrei daquele mês que ganhei de presente da vida, talvez como uma compensação para a minha total incapacidade de tirar férias depois de adulta.

Pelo menos uma coisa boa estava liberada pelo maldito médico: os doces, quanto mais, melhor para o fígado, dizia ele. Santa juventude: comi como uma louca por um mês e meu peso passou de 47 para 48 quilos. O fígado continua ótimo e acho que veio daí a mania de ler sempre mordiscando alguma coisa.

domingo, 21 de agosto de 2011

Apenas uma declaração de amor

Já me perguntaram por que não faço resenhas aqui. As razões são duas: 1- Morro de preguiça, e 2: não é o objetivo deste espaço, que comecei por pura bobeira, após alguns anos passeando pela web e acompanhado blogs pelos quais me encantei, em especial sobre decoração e coisas para a casa. Só bem mais tarde procurei blogs sobre livros e vi que a maioria faz e publica ótimas resenhas, que já me ajudaram a escolher as próximas aquisições. Minha intenção sempre foi falar da minha relação com os livros e com a leitura e o papel definitivo e preponderante que exercem na minha vida desde muito criança. Como diz no templete: o blog é uma declaração de amor aos livros. Outro dia vi por acaso um papo em vários blogs sobre os livros que recebem das editoras para escrever resenhas e percebi surpresa que existe uma parceria que tem um pouco de relação comercial: as editoras mandam os livros e os blogueiros precisam fazer as resenhas. Fiquei então imaginando a minha desorganização para ler, a demora em pegar um livro recém adquirido e – o principal – o fato de que eu me sentiria trabalhando se tivesse que escrever resenhas (ganho a vida escrevendo e escrevo o dia inteiro, nem imagino fazê-lo com mais um motivo, tornando o blog mais um “trabalho”).

Assim, vou continuar escrevendo quando me der vontade ou tiver assunto e não farei resenhas (a menos que leia algo que goste tanto que precise dividir). Vou continuar procurando-as nos blogs de que tanto gosto e acompanho quase diariamente e falar aqui apenas sobre a minha forma de me relacionar com a leitura. Afinal, foi isso que me motivou até hoje.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A pilha. Ou melhor, as pilhas!



Tem de tudo. De E. M. Forster (A mais longa jornada), Alberto Manguel (À mesa com o chapeleiro maluco); Gay Talese (A mulher do próximo), Notícias de um sequestro (Gabriel Garcia Márques que, aliás, tem também a biografia, Viver para contar), Albert Camus (O mito de Sísifo), Antônia Fraser (A revolução da pólvora), Sterne (Viagem sentimental) , Anatole France (O crime de Silvestre Bonnard) e, se nada acontecer, o próximo, Arthur Schopenhauer (Como vencer um debate sem precisar ter razão, comprado há mais de três anos por indicação de um amigo querido em uma viagem a trabalho para Porto Alegre).
Isso tudo e muito mais: são 12 livros de um lado da cama e 36 do outro, onde a “mesa” de cabeceira é uma rack bem espaçosa. Essa é a famosa pilha de livros na fila e estou com preguiça de listar todos, embora não para lê-los. Para isso só preciso de tempo. Tem coisa que chegou agora, como o Pai Goriot, de Balzac, e tem coisa que está na fila há vários anos, como Middlemarch, de George Eliot. Provavelmente sempre terei muita coisa esperando, mas imagino que não nesta quantidade. Os 48 livros estão divididos em quatro pilhas. Eram duas quando cheguei ao meu penúltimo apartamento. Fica a dúvida se eu li menos (ando lendo mais devagar mesmo, admito) ou se acrescentei mais. Um pouco de cada, sem dúvida. De qualquer forma estou suprida no caso hipotético de um acontecimento nuclear que tranque todo mundo em casa por meses (tipo o filme “O dia depois de amanhã”, que está passando agora no telecine). Não duvidaria que os livros acabassem antes da comida....


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A posse. Ai, a posse...


Assim como detesto emprestar meus livros, também não gosto de ler os que não são meus. O meu jeito esquisito de ler, pegando e largando, atravessando várias leituras no meio, indo à estante buscar referências ou relembranças, faz com que em algumas oportunidades o livro demore a ser liberado. E isso não ajuda em nada a reduzir as pacientes (qual o remédio?) pilhas de obras nas mesas de cabeceira.
Por outro lado, o meu velho e já muito admitido sentimento de posse faz com que livro apreciado precise morar em definitivo comigo, entre outros motivos, para eu voltar a ele sempre que me der vontade. Tenho o hábito de comprar livros que já li e que gostei tanto a ponto de querer um exemplar. Quando isso acontece, vão direto para a estante, a menos que a vontade seja muita e eu releio imediatamente. Depois da compra passo dias namorando a nova aquisição. Isso vem do tempo em que pegava unicamente livros em bibliotecas ou conseguia emprestado. Ficou aquele sentimento ruim do “querer e não poder ter” que me visita até hoje, obrigando-me a adquirir pelo puro e simples sentimento de posse. Tenho uma amiga que conta seus tempos de infância em que tinha apenas um sapato de inverno e uma sandália para o verão. Hoje, bem sucedida, compra sapatos a granel e admite que é para compensar os tempos de miserê.
É provável que aconteça o mesmo comigo no que se refere aos livros, e por isso vou comprando.

domingo, 14 de agosto de 2011

Segundo domingo de agosto...

Dia dos pais é uma data complicada para mim, que há 11 anos não tenho mais o meu pai neste mesmo plano. Impossível não chorar ao lembrar que cresci cercada de livros em uma casa onde educação era prioridade, mesmo sendo ele uma pessoa com pouco estudo. Desde 2000, quando ele se foi (não consigo usar a palavra “morte”) fujo de verdade de livros e filmes que versam sobre relações entre pais e filhos, numa tentativa de manter o coração quieto. Mas hoje, quero relembrar que aprendi a gostar de ler estimulada também por ele - já falei sobre isso neste blog - da mesma forma que escolhi o time para o qual torço até hoje e defini a profissão que iria seguir. O orgulho que ele tinha dos filhos é bem parecido com o que sinto por ele. Parabéns pelo teu dia, pai, onde você estiver.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Órfã


Adoro sebos. Pena que está cada vez mais difícil achar alguma preciosidade ali. Tenho notado que eles estão cada vez mais semelhantes entre si, com mais ou menos as mesmas opções e – surpreendente – até os mesmos preços. Aqui no centro de Florianópolis há uma rua com vários e na quarta-feira, por puro acaso passei por ali. Mesmo pressionada pela falta de tempo, entrei rapidamente em dois deles e saí de mãos abanando (incoerência, mas sebos não estão incluídos na minha decisão de dar um tempo nas novas aquisições para as pilhas de não lidos não aumentarem tanto). A impressão que tive é que os livros mais novos são cerca de 5 a 10% mais baratos que na livraria, o que na minha opinião não vale a pena, e os livros mais velhos são muito iguais e com muita porcaria, incluindo toneladas de best sellers antigos. Pouquíssimos clássicos (adooooro) e os que estavam disponíveis tinham muitas repetições. Lógico que preciso tirar um tempo para repassar todos com calma, mas fiquei com uma sensação de orfandade e como se tivesse sido abandonada pelo melhor amigo. Já me disseram que os sebos de São Paulo lá são ótimos e me reacendeu a vontade de sair para garimpar em outras terras...

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Quando tudo sai do controle


Como toda a compulsão, comprar livros também é algo que pode sair do controle. Já comentei que meu escritório fica em frente a uma megastore que constantemente faz promoções e liquidações, embora raramente eu encontre algo que eu deseje ler em um balaio. De qualquer forma, com ou sem balaio de ofertas, compro muito ali, incluindo as aquisições online, com preços às vezes impossíveis e sem frete. Claro que fica impossível resistir e eu sempre consigo achar algo que me interesse nos sites e “aproveitar”. E é bem diferente daquela compulsão que toda mulher tem: compra a roupa ou o sapato sem precisar, porque “o preço estava imperdível”. O livro, ao contrário da roupa desnecessária que todas compramos, eu sei que vou ler, embora não possa precisar quando. Há cerca de quatro meses dei um stop nisso tudo e venho conseguindo me controlar, apesar dos olhares compridos e sofridos na direção do outro lado da rua, pelo mais prosaico dos motivos: chega de empilhar e demorar para ler. E isso tem a ver com o post anterior, quando narrei meu domingo desovando leituras paradas. Não devo ser a única a tentar retomar um livro no ponto onde havia parado e não lembrar nadinha, tendo que voltar ao início. Claro que isso não significa abstinência total de novas compras, mas – pelo menos por um tempo – bom senso. Se for para sair da livraria lendo, tudo bem, caso contrário, vai para a lista (sim eu tenho uma!)

Já saí da livraria em frente com uma pilha de livros, tudo parcelado em várias vezes no cartão, tal qual uma geladeira. Se isso não é compulsão, não sei o que possa ser.

domingo, 7 de agosto de 2011

Pegando e largando

Cresce o meu péssimo hábito (pelo menos para mim) de eventualmente largar pela metade (ou antes, ou depois) os livros que estou lendo, deixando-os de lado em uma das pilhas “esperando a vez” nas mesas de cabeceira e partir para outros. Hoje acordei invocada com isso e consegui desovar três, todos com leitura bem adiantada: “A turma que não escrevia direito”, de Marc Weimgarten, já falei dele aqui neste blog; “A alma da casa”, de Jane Alexander, e as fábulas completas de Esopo, que comprei em mais uma crise de saudade da infância. Li a manhã inteira, das sete da manhã à uma da tarde, aproveitando a manhã fria de inverno e sem nem sair da cama. Após banho e almoço voltei para o ninho e ataquei “200 Crônicas Escolhidas”, de Rubem Braga, outro abandonado há meses. Não sei quanto tempo vai durar esse furor organizacional até eu voltar à bagunça normal de pegar e largar sem remorso. A verdade é que esse desejo de terminar o que comecei tem mais a ver com a angústia pelas pilhas que não diminuem do que “saudade” da obra abandonada em si. Tenho vários outros pela metade, ou menos, mas vou tentar liberar pelo menos um por semana. As duas estantes que ficam no meu quarto estão cheias e os livros mais recentes estão indo para a sala mesmo.
Enquanto não me atrevo a mandar fazer espaços sob medida para os livros vou sonhando com as “estantes de quinta” da Mi Muller, do Bibliophile (www.bibliophile.com.br), e tentando segurar novas aquisições, apesar de receber informativos online da Saraiva, Cultura e outras, tentando me tirar do (mau) caminho.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

And the Oscar goes to...


Todas as (poucas) vezes que assisti a um filme após ter lido o livro saí do cinema irritada. Mais: sentindo-me roubada. Tá bom, eu sei perfeitamente que 90 a 120 minutos é um espaço de tempo muito curto para contar uma história, mas tem gente que exagera. Além de se perder muita coisa, em alguns a petulância chega ao ponto de mudar o final, inventar personagens e excluir outros. Li que o escritor Jorge Amado recusava-se a assistir às novelas adaptadas a partir de obras dele. Dizia que para evitar a aporrinhação e não via e ponto. Um dos livros que mais reli na minha vida, a trilogia de O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, foi adaptado para uma minissérie, da qual assisti apenas o primeiro capítulo. Desliguei a tv xingando em sânscrito. Não sei se foi porque o livro é quase sagrado para mim, mas achei tudo ruim. E confirmei mais uma vez que se eu gostei do livro devo ficar longe do filme. Com uma honrosa exceção: achei o filme “O nome da Rosa” super fiel à obra e muito envolvente. E dou a mão à palmatória: há um filme que eu acho que superou o livro: “Breakfast at Tiffany’s” que deu um banho no conto de Capote. No mais, na lista dos horrores há muitos. Como “Vannity fair” (sorte de Thackeray, que está morto) e odiei a versão de “Orgulho e preconceito”, que achei pobre e desleixado. E vou ficando por aqui, nem quero puxar pela memória, prefiro lembrar coisas boas.
E vamos admitir que não há graça alguma em ver um filme cuja história já conhecemos. Ah sim, claro, mas tem roteirista/adaptador que muda o final, né? Grrrrrrrrr!!!

terça-feira, 26 de julho de 2011

À margem da vida


Outro dia revi o filme “O leitor”, no qual a protagonista, num supremo esforço de superação, aprende a ler sozinha. À parte o fato da história ser belíssima (foi um dos poucos casos em que vi o filme sem ainda ter lido o livro), fiquei imaginando o que seria a vida de um adulto não alfabetizado, sem poder – não vou nem dizer ler livros – decifrar um out-door, uma receita médica, um documento para assinar, um bilhete da professora do filho...
Não lembro de ter conhecido alguém que não soubesse ler, lembro sim, de pessoas com muita dificuldade, embora saiba que isso é mais comum do que possamos pensar. Sei que o cunhado da moça que trabalha na minha casa não tem carteira de motorista porque não é alfabetizado, mas não o conheço pessoalmente e desconheço como é a vida de alguém nessa situação.
Lembro bem, sim, (minha memória é um espanto) de quando eu ainda fingia que sabia ler, de quando ficava olhando para páginas dos livros tentando adivinhar o que eles continham, e da minha empolgação quando fui aprendendo a identificar cada letra. A professora que me alfabetizou – tenho ainda um caderno daquela época – ficou tão ligada a mim, talvez envolvida pelo meu entusiasmo, que chegou a me convidar para ser daminha no casamento dela. Bons tempos.
Na metade do primeiro ano de aula eu já lia fluentemente e passei a ter gostos literários e a sair pela cidade lendo tudo em voz alta. Chata até o último grau. Comecei a colecionar revistas em quadrinhos, ganhar (e pedir) livros de presente, a ler enciclopédias e dicionários e, aos poucos, fui descobrindo a delícia de fazer palavras cruzadas. E nunca mais pensei nisso, na capacidade ou não de ler. Até ver o filme e pensar na horrenda possibilidade de viver totalmente à margem da vida.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Levemente defeituosa


Cresci ouvindo comentários do tipo: “você lê demais, vai estragar os seus olhos”. Nunca acreditei nem por um segundo nessa bobagem e lia como se não houvesse amanhã. E nunca precisei usar óculos até que aos 40 anos me rendi ao fato de que não consegui mais ler as resenhas dos filmes na revista da Net. Catei um oftalmologista e lá fui eu, achando que ele me mandaria embora com ordens de não voltar tão cedo e não fazê-lo perder tempo com pessoas absolutamente saudáveis e com olhos perfeitos. Quebrei a cara ao ouvir a sentença horripilante: é vista cansada e é coisa da idade. Questionei o fato de pessoas mais velhas do que eu ainda não usarem óculos e o médico abanou a mão como que afastando uma mosca imaginária. Eu teria que usar óculos e ponto. Poderia arrastar-me sem eles por mais algum tempo, mas era bobagem. Melhor render-me ao inevitável.
Saí dali rumo a uma ótica, enfurecida e traída. Mandei fazer um par de óculos e repetia feito um mantra que estava charmosa. Cerca de duas semanas depois, já totalmente adaptada, esqueci os óculos em casa, o que só descobri ao chegar ao escritório que, na época, ficava em bairro distinto do meu apartamento. Totalmente desprovida de bom senso, tentei trabalhar sem eles e me deparei com a medonha descoberta de que não conseguir mais ler sem o “equipamento”. Foi uma sensação horrorosa, nunca havia passado por situação semelhante, tentar ler e não conseguir por impossibilidade técnica. Foi uma sensação no mínimo estranha e no máximo muito assustadora.
Hoje tenho seis óculos, um deles no banheiro e não me perguntem para que. Uso um pendurado por uma cordinha no pescoço e dane-se quem diz que isso é coisa de velha. Quando viajo levo dois, para não correr o risco de um acidente me deixar cegueta. E moro a cinco quarteirões do escritório, podendo ir de um ponto a outro em menos de 10 minutos. Nunca mais quero ser impedida de ler o que quer que seja, até porque o grau já aumentou muito e estou a um passo de usar óculos para longe também. Tudo bem que não se estraga os olhos com o uso, mas que eu me sinto levemente defeituosa, ah, isso eu me sinto...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

13 livros

Na festa de aniversário dos meus 12 anos ganhei exatos treze livros. Sei porque contei e nunca esqueci o número. Parece que já havia se espalhado entre os amigos a minha predileção. Ou seria eu que, sem pudor, dei a dica? Meu irmão, que também fazia aniversário em data bem próxima e dividia comigo as festinhas, igualmente ganhou alguns e eu os incorporei, na cara dura. O mais hilário daquele dia foi que, com a festa rolando lá fora, minha mãe teve que me arrancar do banheiro aonde, sentada sobre o cesto de roupas, eu lia um dos presentes recém recebidos. A verdade é que eu mal podia esperar para todo mundo ir para casa e poder ler em paz. A festa já havia perdido todo o encanto.
Os meus anos de faculdade, morando sozinha e Porto Alegre e mal ganhando o suficiente para manter corpo e alma juntos, foram meio sombrios no quesito livros. Comprei poucos, alguns de leitura obrigatória do curso de jornalismo e que não estavam acessíveis na biblioteca. Namorava as vitrines de livrarias e lia escondida entre as estantes – auge da contravenção! – o que naquela época não era permitido, muito longe do que vivemos hoje, quando até poltronas as livrarias disponibilizam para que possamos ler com o maior conforto e decidir se vamos ou não comprar.
Hoje, podendo bancar melhor meu vício, compro livros aos baldes, muito mais do que consigo ler. Hoje as livrarias também facilitam ao máximo o pagamento, com tantas opções é praticamente um consórcio. Ainda me pego levando livros que namorava naquela época e que não estavam ao alcance do meu bolso, incluindo infanto-juvenis, ou para estocar mesmo, na eventual possibilidade de ficar sem ter o que ler e não poder comprar... Devo ser um prato cheio para qualquer psicólogo.

terça-feira, 19 de julho de 2011

"uma menininha que gostasse muito de ler..."


Minha avó materna tinha um repertório limitadíssimo de histórias infantis. Só lembro de uma: “Fernando e o avião vermelho”, creio até que inventada por ela, mas que adorávamos ouvir e, se possível, meter uns cacos na história, meu irmão e eu éramos ótimos nos palpites. Por outro lado, ela tinha uma paciência de santo para contar, com muitos detalhes como criança gosta, várias e várias vezes as poucas histórias que sabia.
Hoje penso que aprendi a procurar o que eu queria nos livros porque na minha casa nunca tive essa de pai ou mãe ler para os filhos ou contar histórias de memória. Minha mãe era professora e o tempo era curto para dar conta de tudo, mas quando o colégio em que ela trabalhava resolveu – sabe-se lá porque – fechar a biblioteca da escola, ela foi até lá e resgatou os livros que me faltavam para completar a coleção de Laura Ingalls Wilder, saga de uma família americana que deliciou a minha infância. Tenho essa coleção até hoje, caindo aos pedaços, mas a folheio de vez em quando.
Desde muito pequena eu lembro de termos coleções de livros infantis em casa. “O mundo da criança” é a primeira de que recordo. Minha mãe custou a me liberar a leitura, pois tinha medo que eu os estragasse. Outra coleção – não lembro o nome – tinha as capas dos livros com cores diferentes. Minha mãe gostava de contar que havia adquirido quando ainda estava grávida e que o vendedor a havia convencido a comprá-la sugerindo que o bebê ainda na barriga poderia ser “uma menininha que gostasse muito de ler”. Preciso dizer que eu amava essa história?

Essas coleções estão todas comigo, em um aparador no meu apartamento. Hoje, relembrando tudo isso, vejo mais uma vez o quanto fui privilegiada. Meus pais pouco mais puderam me dar do que o estudo, mas o plus foi, sem dúvida, o gosto pelo maravilhoso mundo das letras. E que hoje, como nada parece ser por acaso, me ajuda a ganhar a vida.

domingo, 17 de julho de 2011

A primeira vez e a inveja

O escritor Jorge Amado costumava dizer que sentia muita inveja das pessoas que ainda não tinham lido Clochemerle, romance de Chevalier, porque essas pessoas teriam a oportunidade de ler esse livro pela primeira vez. Ele dizia que a emoção da primeira leitura do romance ele já não poderia mais ter, pois o havia lido e relido muitas vezes e recomendava o livro a todos.
Foi assim que me senti quando, há alguns dias, minha afilhada contou que estava lendo, maravilhada e sem conseguir largar, “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Márquez. Além de absolutamente encantada pela escolha dela, que pegou o livro na estante da mãe, imediatamente saí com a imaginação a galope pela saga da família Buendia. Imediatamente lembrei – mais de 25 anos após ter lido – os nomes de José Arcadio, Aureliano e Úrsula, alguns dos personagens eternos, e contei à Clara que aquele foi um dos livros mais marcantes da minha vida. E, realmente, identifiquei-me com Jorge Amado. A inveja que ele sentia de quem lia Clochemerle pela primeira vez deve ter sido a mesma que senti por não poder ler mais Cem anos de solidão com a mesma sensação de inesperado, de novidade e sem sequer imaginar o final devastador que espera todos os novos leitores. Certamente outros livros fazem o mesmo comigo e com todos aqueles que amam a leitura e a maravilhosa sensação de ser levada para muito longe graças à imaginação de um escritor. Esse é, sem dúvida, um dos principais motivos que fazem do hábito de ler um vício totalmente sem cura.

Interessante é que nunca reli "Cem anos de solidão", mesmo tendo o hábito de reler a maioria dos livros que amo. Ele está aqui na minha estante, acompanhado de vários outros títulos de Márquez,talvez esperando que um dia eu volte para buscar a jovem que era quando senti o arrebatamento de lê-lo pela primeira vez.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A necessidade faz o sapo pular


Não posso imaginar como foi que eu me distraí e deixei acontecer, mas já vivi o desespero inenarrável de chegar em um hotel à noite em cidade pequena, comércio fechado, e não ter levado um único livro. Já pensaram na situação? Em um quarto que não era meu, uma tevê com meia dúzia de canais (ruins) e ter só os impressos de propaganda do hotel para ler?
Creio que foi uma das poucas oportunidades da minha vida em que fiquei assim tão desamparada. Naquela época eu não levava (creio que nem tinha) computador nas viagens, ou seja, nem essa muleta estava disponível. Era chorar ou chorar. Eu me detestei profundamente por pelo menos uma sólida meia hora.
Não lembro mais se demorei a dormir e o que eu fiz até o sono chegar, mas a sensação eu jamais esqueci, tanto que eu não só nunca mais deixei de colocar um ou mais livros na mala, como também compro sempre alguma coisa nas livrarias dos aeroportos, rodoviária, padaria, supermercado, o que estiver mais perto.
Voltando um pouco mais atrás, quando eu tinha 17 anos a família inteira viajou para as praias do Uruguai nas férias. Ficamos lá duas semanas, choveu horrores e o que eu tinha para ler não durou tanto. O resultado foi que fiquei craque na leitura em espanhol, o que eu não entendia eu adivinhava. Foi a solução possível, e eu me virei lindo, o que só comprova que a necessidade não tem lei e ensina mais que um rei, que não há melhor mestra que a necessidade e que a necessidade é a mãe da invenção. Ponto.
Tive um namorado que dizia que pagaria qualquer quantia se pudesse aprender inglês em um método que injetasse o conhecimento diretamente na veia, tal qual injeção. Eu concordo plenamente, até porque já frequentei “ene” cursos de inglês e ainda sou uma capenga no idioma. A alternativa talvez fosse viajar para os Estados Unidos sem livro algum. Aposto que voltaria uma verdadeira Gore Vidal de saias e salto alto.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Até dicionário!


Sim, eu leio até dicionários. Claro que eu tenho o Aurélio no computador, mas outro dia peguei o exemplar do Houaiss do escritório para uma pesquisa mais completa e quando “acordei” meia hora havia se passado comigo enlouquecida mergulhada na letra P.
Esse é um hábito que vem da infância e muita gente me pergunta “mas você não tem o que ler?”. Tenho sim, e as pilhas de livros nos dois lados da minha cama estão ali para não me deixar mentir. Mas os dicionários têm um fascínio ao qual não consigo resistir. É meio que como bula de remédio ou rótulo de xampu: leio que porque vai que ali tem uma informação relevante/milagrosa/super útil e num dia não muito distante eu poderei usá-la.
Na casa dos meus pais tínhamos um dicionário que eu achava enorme, mas vejo hoje que era pinto perto dos de hoje. E todo mundo o consultava, até os vizinhos pediam-no emprestado. Acredito que naquela época eu lia dicionário porque ainda não tinha todos os livros que gostaria. E será que algum dia eu os terei?
Um dos motivos para o meu imenso repúdio à reforma ortográfica (são vários) foram os dicionários perdidos. O que eu faço com os três que tenho? Meu coração se revolta com a ideia de mandar reciclar aquele papel todo; por outro lado, nada altera o fato de que estão definitivamente defasados.
Também li muita enciclopédia quando criança e adolescente, numa época em que a internet era coisa dos Jetsons, mais ou menos como o teletransporte. Meu pai comprou algumas enciclopédias (o vendedor batia na nossa porta à noite e a gente os recebia, coisas de quem vivia no interior) e eu adorava, aprendi coisas ali que me servem até hoje. Perdi a conta das vezes em que minha mãe ou minha avó brigaram comigo para eu apagar a luz e ir dormir. Ou para fechar o livro e ir brincar na rua. Acho que elas temiam que eu “estragasse” os olhos de tanto ler. A vantagem que eu tive em relação às crianças de hoje é que, além de ler muito, eu brincava literalmente no meio da rua, subia em árvores, andava com os pés descalços e tomava banho de chuva.
Mas quando voltava para casa depois da pauleira, abria o livro, a revista, a enciclopédia. Ou o dicionário.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Trolando....


No http://ebooksgratis.com.br/ vi esta curiosidade (na verdade, foi-me enviada pelo meu irmão) 30 grandes escritores, trollando 30 grandes escritores. Não resisto a reproduzir aqui, até porque confesso que, embore discorde violentamente de vários, concordo com alguns....


É muito fácil criticar um autor iniciante ou aquele escritor que nunca teve um grande alcance, ainda mais se o crítico é um escritor veterano e considerado universal por sua importância histórica. Mas tem vezes que sobra até para algumas “vacas sagradas” da literatura universal, mesmo os nomes de maior peso como Dostoievsky, James Joyce ou até Mark Twain.
Nesta semana, o site Flavorwire compilou 30 das mais engraçadas provocações públicas da história literária do Ocidente, colocando autor contra autor em uma lista que, apesar de nem ser tão longa, já dá uma ideia em linhas gerais da opinião real que gênios tem de outros gênios. Na seleção, ninguém escapou das linhas afiadas destes romancistas e poetas que incluem Gustave Flaubert, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, Charles Baudelaire, Truman Capote e Henry James.
Logo abaixo você vê a lista completa de insultos de autores para outros autores, todos eles de renome internacional.

30. Gustave Flaubert (Madame Bovary) sobre George Sand (Mattéa)
“Uma grande vaca recheada de namquim”

29. Robert Louis Stevenson (O Médico e o Monstro) sobre Walt Whitman (Leaves of Grass)
“Ele escreve como um cachorro grande e desengonçado que escapou da coleira e vaga pelas praias do mundo latindo para a lua”

28. Friedrich Nietzsche (Assim Falou Zaratustra) sobre Dante Alighieri (A Divina Comédia)
“Uma hiena que escreu sua poesia em tumbas”

27. Harold Bloom (A Invenção do Humano) sobre J.K. Rowling (Harry Potter)
“Como ler Harry Potter e a Pedra Filosofal? Rapidamente, para começar, e talvez também para acabar logo. Por que ler esse livro? Presumivelmente, se você não pode ser convencido a ler nenhuma outra obra, Rowling vai ter que servir.”

26. Vladimir Nabokov (Lolita) sobre Fyodor Dostoievsky (Crime e Castigo)
“A falta de bom gosto do Dostoievsky, seus relatos monótonos sobre pessoas sofrendo com complexos pré-freudianos, a forma que ele tem de chafurdar nas trágicas desventuras da dignidade humana – tudo isso é muito difícil de admirar”

25. Gertrude Stein (The Making of Americans) sobre Ezra Pound (Lustra)
“Um guia turístico de vila. Excelente se você fosse a vila. Mas se você não é, então não é.”

24. Virginia Woolf (Passeio ao Farol) sobre Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo)
“É tudo um protesto cru e mal cozido”

23. H. G. Wells (Guerra dos Mundos) sobre George Bernard Shaw (Pygmalion)
“Uma criança idiota gritando em um hospital”

22. Joseph Conrad (Coração das Trevas) sobre D.H. Lawrence (Filhos e amantes)
“Sujeira. Nada além de obscenidades.”

21. Lord Byron (Don Juan) on John Keats (To Autumn)
“Aqui temos a poesia ‘mija-na-cama’ do Johnny Keats e mais três romances de sei lá eu quem. Chega de Keats, eu peço. Queimem-o vivo! Se algum de vocês não o fizer eu devo arrancar a pele dele com minhas próprias mãos.”

20. Vladimir Nabokov sobre Joseph Conrad
“Eu não consigo tolerar o estilo loja de presentes de Conrad e os navios engarrafados e colares de concha de seus clichês românticos.”

19. Dylan Thomas (25 Poemas) sobre Rudyard Kipling (The Jungle Book)
“O senhor Kipling representa tudo o que há nesse mundo cancroso que eu gostaria que fosse diferente”

18. Ralph Waldo Emerson (Concord Hymn) sobre Jane Austen (Orgulho e Preconceito)
“Os romances da senhorita Austen me parecem vulgares no tom, estéreis em inventividade artística, presos nas apertadas convenções da sociedade inglesa, sem genialidade, sem perspicácia ou conhecimento de mundo. Nunca a vida foi tão embaraçosa e estreita.”

17. Martin Amis (Experiência) sobre Miguel Cervantes (Dom Quixote)
“Ler Don Quixote pode ser comparavel a uma visita sem data para acabar de seu parente velho mais impossível, com todas as suas brincadeiras, hábitos sujos, reminiscências imparaveis e sua intimidade terrível. Quando a experiência acaba (na página 846 com a prosa apertada, estreita e sem pausa para diálogos), você vai derramar lágrimas, isso é verdade. Mas não de alívio ou de arrependimento e sim lágrimas de orgulho. Você conseguiu!”

16. Charles Baudelaire (Paraísos Artificiais) sobre Voltaire (Cândido)
“Eu cresci entediado na França. E o maior motivo para isso é que todo mundo aqui me lembra o Voltaire… o rei dos idiotas, o príncipe da superficialidade, o antiartista, o porta-voz das serventes, o papai Gigone dos editores da revista Siecle”

15. William Faulkner (A Cidade) sobre Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram)
“Ele nunca sequer pensou em usar uma palavra que pudesse mandar o leitor para um dicionário.”

14. Ernest Hemingway sobre William Faulkner
“Pobre Faulkner. Ele realmente pensa que grandes emoções vem de grandes palavras?”
13. Gore Vidal (O Julgamento de Paris) sobre Truman Capote (A Sangue Frio)
“Ele é uma dona de casa totalmente empenada do Kansas, com todos os seus preconceitos.”

12. Oscar Wilde (O Retrato de Dorian Grey) sobre Alexander Pope (Ensaio sobre a crítica)
“Existem duas formas de se odiar poesia: uma delas é não gostar, a outra é ler Pope.”

11. Vladimir Nabokov sobre Ernest Hemingway
“Quanto ao Hemingway, eu li um livro dele pela primeira vez nos anos 40, algo sobre sinos, bolas e bois, e eu odiei.”

10. Henry James (Calafrio) sobre Edgar Allan Poe (Os Crimes da Rua Morgue)
“Se entusiasmar com o Poe é a marca de um estágio decididamente primitivo da reflexão.”

9. Truman Capote sobre Jack Kerouac (On The Road)
“Isso não é escrever. Isso é só datilografar.”

8. Elizabeth Bishop (Norte e Sul) sobre J.D. Salinger (Apanhador no Campo de Centeio)
“Eu odiei o ‘Apanhador no Campo de Centeio’. Demorei dias para começar a avançar, timidamente, uma página de cada vez e corando de vergonha por ele a cada sentença ridícula pelo caminho. Como deixaram ele fazer isso?”

7. D.H. Lawrence sobre Herman Melville (Moby Dick)
“Ninguém pode ser mais palhaço, mais desajeitado e sintaticamente de mau gosto como Herman, mesmo em um grande livro como Moby Dick. Tem algo falso sobre sua seriedade, esse é o Melville.”

6. W. H. Auden (Funeral Blues) sobre Robert Browning (Flautista de Hamelin)
“Eu não acho que Robert Browning era nada bom de cama. Sua mulher também provavelmente não ligava muito pra ele. Ele roncava e devia ter fantasias sobre garotas de 12 anos.”

5. Evelyn Waugh (Memórias de Brideshead) sobre Marcel Proust (Em Busca do Tempo Perdido)
“Estou lendo Proust pela primeira vez. É uma coisa muito pobre. Eu acho que ele tinha algum problema mental.”

4. Mark Twain (As Aventuras de Huckleberry Finn) sobre Jane Austen
“Eu não tenho o direito de criticar nenhum livro e eu nunca faço isso, a não ser quando eu odeio um. Eu sempre quero criticar a Jane Austen, mas seus livros me deixam tão bravo que eu não consigo separar minha raiva do leitor, portanto eu tenho que parar a cada vez que eu começo. Cada vez eu tento ler Orgulho e Preconceito eu quero exumar seu cadáver e acertá-la na cabeça com seu osso do queixo.”

3. Virginia Woolf sobre James Joyce (Ulisses)
“Ulisses é o trabalho de um estudante universitário enjoado coçando as suas espinhas”

2. William Faulkner sobre Mark Twain
“Um escritor mercenário que não conseguia nem ser considerado da quarta divisão na Europa e que enganou alguns esqueletos literários de tiro-certo com cores suficientemente locais para intrigar os superficiais e preguiçosos.”

1. D.H. Lawrence sobre James Joyce
“Meu deus, que idiota desastrado esse James Joyce é. Não é nada além de velhos trabalhos e tocos de repolho de citações bíblicas com um resto cozido em suco de um jornalismo deliberadamente sujo.”

via Revista Trip, via FlavorWire

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sopa, molho, chá e até sangue


Eventualmente sofro acidentes porque tenho também o hábito de comer lendo. Já encharquei um livro com sopa, enruguei outro com o conteúdo inteiro de uma xícara de chá e manchei páginas com molho ferrugem. Tá bom ou querem mais? Embora o acidente seja de outra área, já cortei o dedo na própria folha e manchou de sangue. Isso significa que literalmente os livros já têm o meu sangue! E casos como esses são os que eu lembro agora, mas foram incontáveis os incidentes similares.
Tudo isso porque não dissocio mais o ato de ler com o de comer. Talvez por morar sozinha, acho chato sentar direitinho, sem companhia, à mesa para as refeições. Vejo filmes em que os protagonistas comem em pé, escorados na pia da cozinha. Que coisa mais sem graça! E, na verdade, acho isso muito pior do que fazer a refeição comodamente sentado, ao mesmo tempo em que se lê alguma coisa. Ou seja: faço da refeição um prazer ainda maior. Deve ser por isso que estou sempre precisando começar uma dieta...
Mas a verdade é que tenho este hábito desde criança. Meus pais reclamavam, proibiam e ensinavam, mas eu reincidia e chegava todos os dias para o almoço com um livro sob o braço. E quem herda não furta, diz o ditado, meu super hiper mega avô fazia o mesmo. Ele conseguia ler um jornal tamanho standard e ouvir as notícias pelo rádio enquanto comia sem sequer sujar o bigode. Mas ele era um profissional, eu continuo amadora. Minha admiração era tanta que incorporei o hábito e, na casa dele, eu lia à mesa sem sofrer recriminações.
Levando em conta que é um costume tão antigo, eu já deveria estar mais safa e não deixar isso acontecer, mas o maior problema é a total distração e o envolvimento com o texto. E claro que tem a contrapartida: já perdi a conta das vezes em que, totalmente absorta, queimei a língua porque não reparei que a comida ainda estava quente demais.
E entre mortos e feridos, salvamo-nos todos.

Em tempo: a imagem é de uma bandeja de leitura em acrílico transparente que permite ao usuário ler e comer sem sujar a revista ou livro. Criação do designer coreano Yu-Hu Kin, que também já deve ter sofrido acidentes....

domingo, 26 de junho de 2011

Domingos perfeitos


Só existe uma coisa que eu goste mais do que acordar no domingo. É acordar num domingo em que chove, venta, faz frio e eu não preciso sair da cama. E posso rever “Friends” pela centésima vez. Como hoje. Mal consigo enxergar a rua pela janela, coberta por uma grossa cortina de pingos. Minha única atividade concreta foi trazer o café para tomar na cama.
E como gosto de paradoxos, pesquei “Sob o sol da Toscana” da estante e já mergulhei no verão escaldante da Itália. Gosto de livros que enfatizam o clima, tenho certa fissura por descrições metereológicas e sou a única pessoa da humanidade inteira – diz uma amiga – a acreditar em previsão do tempo. Talvez por isso eu goste de livros de viagens do tipo a-volta-ao-mundo-sozinho-em-um-veleiro ou escalações terrivelmente perigosas ao Everest. Gosto de lê-los, mas na mais absoluta segurança e conforto. Como disse acima, sou chegada num paradoxo.
E gosto de acordar cedo no fim de semana. Já tive um chefe, décadas atrás, o qual afirmava que a população de uma determinada cidade do país (não digo qual nem morta, não concordo, e adoro o lugar) acordava cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. De qualquer forma, incorporei o pensamento: acordo – mesmo – mais cedo para curtir o dia sem compromissos. A única coisa que está na agenda é ligar para minha mãe e certificar-me de que ela está agasalhada até a alma. No mais, muitos livros e três tipos diferentes de chocolate me esperam. Bom domingo!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

No ar


Leio em qualquer lugar. Em sala de espera, nos eventos intermináveis (escondida), nos cafés, em praças de alimentação nos shoppings e até em elevador. Já contei aqui meus tempos de faculdade em que pegava seis conduções por dia e lia durante as “viagens”. Mas o livro dentro de um avião, além de ajudar a passar o tempo e esquecer que estou confinada em uma caixa de metal a nove mil pés de altura, também me resguarda dos chatos.
Já perdi a conta do número de vezes em que enfiei a cara no livro para evitar conversas nas quais o ocupante da poltrona ao lado narra – longa e detalhadamente – a história da sua vida ou, o que é pior, desfia sua opinião a respeito do governo (qualquer um), do futuro da humanidade e, após arrancar de mim que sou jornalista, a baixa confiabilidade dos veículos de comunicação no Brasil e dos seus profissionais.
Cansei. Gato escaldadíssimo, sou monossilábica e, cara de paisagem, peço licença e vou lendo. Já fiz uma viagem de Brasília a Florianópolis sentada ao lado de um senador com o qual troquei apenas um breve cumprimento. E abri o livro. Aliás, com um audível suspiro de alívio, ele abriu o dele também, após perguntar o que eu estava lendo.
Se bem que chato profissional não se deixa abater por um livro. Começa perguntando qual é o tema, o autor, se é bom, diz quais são os seus favoritos se é que tem (nunca os meus) e, se não formos firmes, em breve estaremos envolvidos em uma longa conversa, quase impossível de interromper.
O único porém de ler dentro de um avião é o livro mais pesado literalmente falando. Ou seja, se tiver muitas páginas, cansa para segurar sem um apoio melhor do que as mesinhas para refeição. No mais, o livro mais fino é um grande companheiro desde a fila de espera do check in, passando pela muitas vezes longa espera por um vôo atrasado, até o trajeto propriamente dito. Reli “O Estrangeiro”, de Albert Camus, a partir do momento em que entrei no aeroporto em Porto Alegre até a aterrissagem em Florianópolis.
Antipática? Sem dúvida. Perco a chance de conhecer pessoas legais? Talvez. Mas é esse “talvez” que me segura. Lembro uma amiga que, sem o recurso do livro, interrompeu um papo horrível dizendo que precisava reclinar a poltrona ou iria devolver de forma pouco educada o almoço. O restante do vôo aconteceu em absoluto silêncio.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Livros “difíceis”


Só venci a vergonha (hein?) por ter tido grande dificuldade com Proust depois que li José Mindlin confessar em “Uma vida entre livros” que também passou por isso. Ele inclusive recomendava insistência por parte do leitor, que não devia abandonar a obra. Já disse aqui que tentei ler Ulysses, de James Joyce, três vezes. Também não consegui terminar de jeito nenhum “Henderson, o rei da chuva”, de Saul Bellow, e “Vitória”, de Joseph Conrad. Podem até ser ótimos livros, mas que leitura que não andava...
Em compensação, amei livros que amigos consideraram áridos, como “A montanha mágica”, de Thomas Mann, e “Arquipélago Gulag”, de Aleksandr Solzhenitsyn. “O outono do patriarca”, de Gabriel Garcia Márquez foi outro livro que li de forma bastante veloz, apesar dos parágrafos quilométricos e a quase ausência de pontuação. Cheguei à conclusão que o gosto por literatura é como o gosto pela comida. Vá explicar porque eu não gosto de cebola e amo alho. E porque eu não suporto coco e sou louca por opções mais “exóticas” como fruta do conde. Se não houvesse gosto literário o que seria de autores que considero uma tragédia e que vendem horrores?
Mas a verdade é que eu resisto a abandonar a leitura de um livro. Sei lá, acho traição. Raros foram os que larguei e não voltei a fazer nova tentativa. Taí Proust que não me deixa mentir.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Amor bruto?


Dobro, risco, desenho, sujo e marco as páginas dos meus livros. E daí? Esse é – além de um pouco aconselhável sentimento de posse – um dos motivos de eu não gostar de ler livros emprestados. O outro motivo, que não é novidade, é que gosto de ter bem à mão aquilo que me interessa. Outro dia descobri que a minha afilhada também é assim. Embora não sejamos do mesmo sangue, a convivência ao longo dos anos mostra que o fruto não cai – mesmo – longe do pé. Mas voltando ao tema principal: já fui execrada por estes hábitos tão pouco condizentes com o meu amor pelos livros. Mas acho coerente, afinal, tal comportamento apenas denota muita intimidade. Intimidade que inclui pegar no sono com livros ao meu lado na cama a ponto de, com um golpe de edredom, lançá-los ao chão junto com óculos, sem a menor cerimônia. Já anotei números de telefone em páginas de livros (e quando os releio fico morta de curiosidade acerca do possível “anotado”) e já sofri acidentes porque tenho também o hábito de comer lendo – outra hora falo sobre isso. Horrível? Não. Para mim tudo isso é normal. Anormal é deixar livros dormindo para sempre em estantes, criando bolor e ácaros sem irem para a vida. Anormal é não ler, é ver o filme e não ler o livro, é ler as resenhas e achar que está bom. Acho que, guardadas as devidas proporções, livro é como filho: por mais que os amemos, precisamos berrar com eles de vez em quando. Mas até o berro é sinal de amor. E tenho dito.