quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sopa, molho, chá e até sangue


Eventualmente sofro acidentes porque tenho também o hábito de comer lendo. Já encharquei um livro com sopa, enruguei outro com o conteúdo inteiro de uma xícara de chá e manchei páginas com molho ferrugem. Tá bom ou querem mais? Embora o acidente seja de outra área, já cortei o dedo na própria folha e manchou de sangue. Isso significa que literalmente os livros já têm o meu sangue! E casos como esses são os que eu lembro agora, mas foram incontáveis os incidentes similares.
Tudo isso porque não dissocio mais o ato de ler com o de comer. Talvez por morar sozinha, acho chato sentar direitinho, sem companhia, à mesa para as refeições. Vejo filmes em que os protagonistas comem em pé, escorados na pia da cozinha. Que coisa mais sem graça! E, na verdade, acho isso muito pior do que fazer a refeição comodamente sentado, ao mesmo tempo em que se lê alguma coisa. Ou seja: faço da refeição um prazer ainda maior. Deve ser por isso que estou sempre precisando começar uma dieta...
Mas a verdade é que tenho este hábito desde criança. Meus pais reclamavam, proibiam e ensinavam, mas eu reincidia e chegava todos os dias para o almoço com um livro sob o braço. E quem herda não furta, diz o ditado, meu super hiper mega avô fazia o mesmo. Ele conseguia ler um jornal tamanho standard e ouvir as notícias pelo rádio enquanto comia sem sequer sujar o bigode. Mas ele era um profissional, eu continuo amadora. Minha admiração era tanta que incorporei o hábito e, na casa dele, eu lia à mesa sem sofrer recriminações.
Levando em conta que é um costume tão antigo, eu já deveria estar mais safa e não deixar isso acontecer, mas o maior problema é a total distração e o envolvimento com o texto. E claro que tem a contrapartida: já perdi a conta das vezes em que, totalmente absorta, queimei a língua porque não reparei que a comida ainda estava quente demais.
E entre mortos e feridos, salvamo-nos todos.

Em tempo: a imagem é de uma bandeja de leitura em acrílico transparente que permite ao usuário ler e comer sem sujar a revista ou livro. Criação do designer coreano Yu-Hu Kin, que também já deve ter sofrido acidentes....

domingo, 26 de junho de 2011

Domingos perfeitos


Só existe uma coisa que eu goste mais do que acordar no domingo. É acordar num domingo em que chove, venta, faz frio e eu não preciso sair da cama. E posso rever “Friends” pela centésima vez. Como hoje. Mal consigo enxergar a rua pela janela, coberta por uma grossa cortina de pingos. Minha única atividade concreta foi trazer o café para tomar na cama.
E como gosto de paradoxos, pesquei “Sob o sol da Toscana” da estante e já mergulhei no verão escaldante da Itália. Gosto de livros que enfatizam o clima, tenho certa fissura por descrições metereológicas e sou a única pessoa da humanidade inteira – diz uma amiga – a acreditar em previsão do tempo. Talvez por isso eu goste de livros de viagens do tipo a-volta-ao-mundo-sozinho-em-um-veleiro ou escalações terrivelmente perigosas ao Everest. Gosto de lê-los, mas na mais absoluta segurança e conforto. Como disse acima, sou chegada num paradoxo.
E gosto de acordar cedo no fim de semana. Já tive um chefe, décadas atrás, o qual afirmava que a população de uma determinada cidade do país (não digo qual nem morta, não concordo, e adoro o lugar) acordava cedo para ficar mais tempo sem fazer nada. De qualquer forma, incorporei o pensamento: acordo – mesmo – mais cedo para curtir o dia sem compromissos. A única coisa que está na agenda é ligar para minha mãe e certificar-me de que ela está agasalhada até a alma. No mais, muitos livros e três tipos diferentes de chocolate me esperam. Bom domingo!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

No ar


Leio em qualquer lugar. Em sala de espera, nos eventos intermináveis (escondida), nos cafés, em praças de alimentação nos shoppings e até em elevador. Já contei aqui meus tempos de faculdade em que pegava seis conduções por dia e lia durante as “viagens”. Mas o livro dentro de um avião, além de ajudar a passar o tempo e esquecer que estou confinada em uma caixa de metal a nove mil pés de altura, também me resguarda dos chatos.
Já perdi a conta do número de vezes em que enfiei a cara no livro para evitar conversas nas quais o ocupante da poltrona ao lado narra – longa e detalhadamente – a história da sua vida ou, o que é pior, desfia sua opinião a respeito do governo (qualquer um), do futuro da humanidade e, após arrancar de mim que sou jornalista, a baixa confiabilidade dos veículos de comunicação no Brasil e dos seus profissionais.
Cansei. Gato escaldadíssimo, sou monossilábica e, cara de paisagem, peço licença e vou lendo. Já fiz uma viagem de Brasília a Florianópolis sentada ao lado de um senador com o qual troquei apenas um breve cumprimento. E abri o livro. Aliás, com um audível suspiro de alívio, ele abriu o dele também, após perguntar o que eu estava lendo.
Se bem que chato profissional não se deixa abater por um livro. Começa perguntando qual é o tema, o autor, se é bom, diz quais são os seus favoritos se é que tem (nunca os meus) e, se não formos firmes, em breve estaremos envolvidos em uma longa conversa, quase impossível de interromper.
O único porém de ler dentro de um avião é o livro mais pesado literalmente falando. Ou seja, se tiver muitas páginas, cansa para segurar sem um apoio melhor do que as mesinhas para refeição. No mais, o livro mais fino é um grande companheiro desde a fila de espera do check in, passando pela muitas vezes longa espera por um vôo atrasado, até o trajeto propriamente dito. Reli “O Estrangeiro”, de Albert Camus, a partir do momento em que entrei no aeroporto em Porto Alegre até a aterrissagem em Florianópolis.
Antipática? Sem dúvida. Perco a chance de conhecer pessoas legais? Talvez. Mas é esse “talvez” que me segura. Lembro uma amiga que, sem o recurso do livro, interrompeu um papo horrível dizendo que precisava reclinar a poltrona ou iria devolver de forma pouco educada o almoço. O restante do vôo aconteceu em absoluto silêncio.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Livros “difíceis”


Só venci a vergonha (hein?) por ter tido grande dificuldade com Proust depois que li José Mindlin confessar em “Uma vida entre livros” que também passou por isso. Ele inclusive recomendava insistência por parte do leitor, que não devia abandonar a obra. Já disse aqui que tentei ler Ulysses, de James Joyce, três vezes. Também não consegui terminar de jeito nenhum “Henderson, o rei da chuva”, de Saul Bellow, e “Vitória”, de Joseph Conrad. Podem até ser ótimos livros, mas que leitura que não andava...
Em compensação, amei livros que amigos consideraram áridos, como “A montanha mágica”, de Thomas Mann, e “Arquipélago Gulag”, de Aleksandr Solzhenitsyn. “O outono do patriarca”, de Gabriel Garcia Márquez foi outro livro que li de forma bastante veloz, apesar dos parágrafos quilométricos e a quase ausência de pontuação. Cheguei à conclusão que o gosto por literatura é como o gosto pela comida. Vá explicar porque eu não gosto de cebola e amo alho. E porque eu não suporto coco e sou louca por opções mais “exóticas” como fruta do conde. Se não houvesse gosto literário o que seria de autores que considero uma tragédia e que vendem horrores?
Mas a verdade é que eu resisto a abandonar a leitura de um livro. Sei lá, acho traição. Raros foram os que larguei e não voltei a fazer nova tentativa. Taí Proust que não me deixa mentir.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Amor bruto?


Dobro, risco, desenho, sujo e marco as páginas dos meus livros. E daí? Esse é – além de um pouco aconselhável sentimento de posse – um dos motivos de eu não gostar de ler livros emprestados. O outro motivo, que não é novidade, é que gosto de ter bem à mão aquilo que me interessa. Outro dia descobri que a minha afilhada também é assim. Embora não sejamos do mesmo sangue, a convivência ao longo dos anos mostra que o fruto não cai – mesmo – longe do pé. Mas voltando ao tema principal: já fui execrada por estes hábitos tão pouco condizentes com o meu amor pelos livros. Mas acho coerente, afinal, tal comportamento apenas denota muita intimidade. Intimidade que inclui pegar no sono com livros ao meu lado na cama a ponto de, com um golpe de edredom, lançá-los ao chão junto com óculos, sem a menor cerimônia. Já anotei números de telefone em páginas de livros (e quando os releio fico morta de curiosidade acerca do possível “anotado”) e já sofri acidentes porque tenho também o hábito de comer lendo – outra hora falo sobre isso. Horrível? Não. Para mim tudo isso é normal. Anormal é deixar livros dormindo para sempre em estantes, criando bolor e ácaros sem irem para a vida. Anormal é não ler, é ver o filme e não ler o livro, é ler as resenhas e achar que está bom. Acho que, guardadas as devidas proporções, livro é como filho: por mais que os amemos, precisamos berrar com eles de vez em quando. Mas até o berro é sinal de amor. E tenho dito.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Preguiça, saldos e tapetes. Não necessariamente nessa ordem


Ando preguiçosa para tudo. Para escrever, para trabalhar (que, afinal, é a mesma coisa) e o que é muito pior: para seguir arrumando os livros de forma criativa na minha nova casa. Não sei se é o inverno (o apartamento com piso de pedra é gelado, apesar de eu tentar minimizar com tapetes) ou se cheguei a uma encruzilhada: a pilha de livros a ler não para de crescer e o meu hábito de buscar coisas antigas na estante para reler não ajuda muito a baixá-la.
Do outro lado do calçadão onde fica o meu escritório, no centro da cidade, há uma mega store que eu costumo frequentar. A intervalos regulares sai uma promoção de livros a R$ 9,90, mas a verdade é que até hoje só consegui extrair três livros dali. Acho que além de preguiçosa estou cada vez mais seletiva, incluindo o fato de que estou lendo cada vez menos ficção. Ou as livrarias estão mesmo tentando desovar enormes estoques encalhados. Se eu fosse escritora morreria ao ver o fruto do meu suor numa pilha de saldos. E olha que aparece muita gente boa ali...
Enquanto isso, vasculho lojas de móveis esperando esbarrar em uma estante linda e barata, afinal, de esperança também se vive. Consegui uma micro estante precisando de pintura (oi! e a preguiça?) e acho que bem arrumadinha não vai fazer feio na sala. De graça, até ônibus errado.
Mas todo esse nariz de cera é para dizer que apesar da preguiça, não vou deixar de postar aqui. Gosto de pensar que esse blog é uma espécie de diário moderno, a exemplo do que eu fazia quando adolescente em cadernos brochura encapados para disfarçar. Sim, eu já tive diário. Morro de pena ao lembrar que me desfiz deles quando saí da minha cidade para fazer faculdade em Porto Alegre. As coisas que já me arrependi de ter apagado, rasgado e queimado são tema para um livro. Mas como eu digo sempre, isso já é outra história.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Meu ex libris


Sempre tive o hábito de assinar a primeira página dos meus livros e colocar o ano de aquisição. Fiz isso durante muito tempo até “descobrir” os ex libris e me apaixonar pela ideia. Rapidinha, do pensamento à ação foi menos de um dia. Fui pesquisar na internet e achei modelos de tudo, desde os muito simples, como o de José Mindlin, aos muito complicados, verdadeiras obras de arte.
Vi ex libris engraçadinhos, pornográficos (vi sim!), ameaçadores aos possíveis gatunos de livros (aqueles seres odiosos que pedem emprestado e não devolvem), meigos, infantis e os super hiper mega plus criativos. Descobri também que inúmeros ex libris apresentam apenas uma ilustração ou, como queiram, uma espécie de selo; porém, outros têm ainda uma espécie de "divisa", frase ou mesmo pensamentos específicos.
Aí fiquei pensativa. Não iria colocar uma frase que não fosse minha e como não me ocorreu nada brilhante/definitivo sobre o meu amor pelos livros, comecei a pensar na ideia de usar uma imagem. Mas não podia ser qualquer imagem, tinha que ser algo que super tivesse a ver comigo e com a minha história. E como quase nada na minha vida se arrasta, tudo corre, acendeu-se a lâmpada metafórica sobre a cabeça e lembrei que uma das paredes do meu apartamento tinha emolduradas exatas 15 ilustrações feitas a bico de pena pelo meu avô em 1922. Eram casarios e castelos da Alemanha, imagens de pura saudade da parte dele. Todas de paisagens, sem figuras humanas, com uma única exceção, a de um “caminhante”, que passou a ilustrar o meu ex libris.
Na minha opinião, ficou lindo e, melhor ainda, repleto de significados, já que meu avô foi desde muito cedo um dos grandes incentivadores que tive (foram vários, que sorte) para que enveredasse pelos caminhos da leitura. Gosto de pensar que ele me acompanha em todos os livros que compro e leio e de pensar que a sua arte e a sua alma continuam vivas não só em mim, mas se tornaram algo que saiu para o mundo. É como se os seus ensinamentos tivessem de fato brotado e criado raízes. Hoje, quando procuro fazer o mesmo com a minha afilhada, não deixo de nutrir esperanças de que ela um dia lembre de mim como alguém que a ajudou a construir o seu amor pelos livros.

Enfim, aí está. A imagem que ilustra este post nem poderia ser outra. Só com um detalhe: a cor de fundo não é esse "rosado" que se meteu aqui no computador. Ele é todo com uma cor envelhecida, combinando com o desenho, que foi feito pelo meu avô em um bloco de folhas muito grossas, antigo mesmo, parecendo papel reciclado, mas que pela época não devia ser.

domingo, 24 de abril de 2011

Uma visita à infância


Ainda estou me achando no novo apartamento. É tão diferente do anterior que tudo aquilo que “funcionava” lá, não funciona aqui. Isso significa janelas sem cortinas, tomadas em lugares errados e quadros ainda no chão, encostados nas paredes. Convivo com tudo isso numa boa, mas o que realmente me incomoda são os muitos livros ainda sem pouso certo. Ontem dediquei o sábado a arrumar um aparador que recebeu meus livros de infância. São coleções com capas coloridas que li e reli tantas vezes que chegam a estar um pouco sacrificadas, capas desgastadas e até mesmo lombadas soltas. Sentei no chão e fiquei longo tempo folheando e até mesmo me reencontrando, cheguei a ter as mesmas sensações daquelas longuíssimas tardes de verão (por que o tempo demora tanto a passar quando somos crianças e voa desgovernado quando atingimos a maturidade?) em que lia sem parar, ao ponto de chegar ao fim do livro e voltar ao início imediatamente.
Como não gosto de dormir com a porta fechada, vejo da minha cama esse móvel, que contém ainda objetos de estimação como uma luminária de biblioteca americana e algumas cópias da minha coleção de miniaturas de máquinas de escrever. Falta só um ou dois quadros naquela parede, mas isso ainda vai exigir um pouco mais da minha imaginação e boa vontade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Não estamos sós!


Matéria no site da Folha de São Paulo hoje "Maioria (82%) costuma cheirar livros, aponta enquete da Livraria da Folha" http://www1.folha.uol.com.br/livrariadafolha/897123-maioria-82-costuma-cheirar-livros-aponta-enquete-da-livraria-da-folha.shtml

reforça aquilo que eu sempre disse; graças a Deus não somos malucos sozinhos. E a loucura, quando (bem)acompanhada passa fácil por aquilo que chamamos de normalidade.
Diz a matéria, em caso de preguiça de ir até lá: "Esse aspecto do hábito de leitura é pertinente em um momento em que os livros eletrônicos ganham espaço no mercado editorial. Para alguns críticos da nova tecnologia, devorar uma obra na tela é como "transar com uma boneca inflável", ou seja, é uma experiência fria, impessoal, que exclui o prazer do tato e de outros sentidos como o olfato."

"O cheiro dos livros virou até alvo de performances. Nos EUA, Rachael Morrison, uma funcionária do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), lançou uma performance chamada "Smelling the Books" ("Cheirando os Livros"), em que ela pretende descrever o odor de cada volume da coleção da biblioteca."

E os "companheiros" são os mais variados. Até a presidente (recuso-me categoricamente a empregar o tempo "presidenta") Dilma Roussef admitiu em entrevista que costuma cheirar os seus livros.
Já citei neste blog em outro post escritores que também tinham o mesmo hábito e só voltei ao assunto porque a enquete da Folha me empurrou.

Em tempo: a imagem do post foi chupada do site da Folha. Se alguém achar ruim, é só me avisar que eu tiro. É Rachael Morrison cheirando livros em performance em Nova York

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ex libris

Não faz tanto tempo assim que eu descobri o significado da expressão ex libris. Na verdade, tudo começou com o livro de mesmo nome de Anne Fadimann, onde ela relata seu relacionamento com os livros e o que eles significam para ela. É hilário o capítulo em que ela conta como “casou” a sua biblioteca com a do marido. Não só identifiquei-me com ela (menos a parte do marido) como fui atrás do ex libris e descobri é uma expressão latina empregada para determinar a propriedade de um livro. Pronto, não precisei mais nada, para uma obsessiva/compulsiva como eu era obrigatório que eu tivesse também um ex libris. Com a ajuda de uma amiga criei um lay out e pedi a outro amigo (pareço aproveitadora, mas juro que não sou) para imprimir. Após receber a pilha de impressos, cortadinhos e autocolantes, tive momentos absolutamente deliciosos por exatos dois dias (pouco, muito pouco) repassando livro por livro e colando o ex libris em cada um deles. Mesmo hoje, a cada nova aquisição, tenho momentos de puro prazer ao “marcar a ferro” as novas propriedades.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Mudança, novo espaço e costas arrebentadas

Uma mudança e cerca de 1.200 livros encaixotados e desencaixotados deixaram-me literalmente entregue (pena que não mais magra). E a tarefa de desarrumar na casa velha para depois arrumar na casa nova deixou-me pensativa sobre o sentimento de posse que tenho em relação aos meus livros, já que a maioria deles não será mais aberta para nova leitura, embora eu cultive com paixão o hábito de reler? Será que eles devem mesmo ficar dormindo na estante ou serem doados para quem possa usufruir do mesmo prazer que tive ao lê-los? Coisa para se pensar.
De qualquer forma, lá estão eles, devidamente enfileirados nas estantes (na sala estão desarrumados ainda, faltou energia) que agora estacionaram no meu quarto. Antes eu tinha um quarto sobrando e tinha feito um "escritório". O novo apartamento, embora maior em metros quadrados, não tem esse espaço, assim, os livros foram habitar o meu quarto. Assim, durmo e acordo olhando para eles, ou seja, é um belo alimento para a minha compulsão. Será que estou piorando?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Dias de infância


Marcel Proust: “Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido. Ler para viver, Ler para fazer perguntas. A leitura é a mais civilizada das paixões. Mesmo quando registra atos de barbarismos, sua história é uma celebração da alegria e da liberdade. Ler significa aproximar-se de algo que acaba de ganhar existência."


Boa parte das lembranças da minha infância são associadas a livros, bibliotecas e mãe brigando porque estava na hora de apagar a luz e dormir. Dias de verão com as cigarras cantando loucamente nas árvores e eu dentro de casa atracada com algo fascinante. Para a criança que eu fui qualquer leitura era novidade, e são intensas as memórias de tudo aquilo que comecei a aprender através dos livros. E a eles eu só posso dizer: obrigada!

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Estantes inéditas e invernos diferentes


Quando eu estava na faculdade, trabalhava durante o dia e frequentava aulas à noite. Eram dois ônibus de casa para o trabalho, outros dois do trabalho para a faculdade e mais dois (ufa) para voltar para casa perto da meia noite. Era de três horas a quatro horas por dia no transporte público, e sentada só quando dava sorte. Como eu era jovem e tinha uma energia que até hoje não sei explicar, raramente aproveitava aquele tempo para dormir. Tampouco me dava ao trabalho de estudar, passava com notas até razoáveis porque sempre fui uma otimista e devia ter um anjo da guarda de olho. Li muito naquela época, até mesmo em pé, e ainda hoje consigo ler sem ficar enjoada – como tanta gente reclama – dentro de um veículo em movimento.
Sem uma moeda sobrando para bancar um analgésico para dor de cabeça se tivesse uma, descobri – absolutamente maravilhada – a biblioteca da universidade. Ficava horas perdida pelos corredores escolhendo o que levar (naquela época era possível pegar dois livros por semana; será que mudou?) e eu raramente precisava renovar o prazo. Devolvia e escolhia outros. Foi ali que descobri autores de quem só ouvira falar até então e que nem sonhava em poder comprar. Naquela época amadureci, viajei muito sem pegar um avião, fiquei mais articulada, melhorei o vocabulário e assustei possíveis pretendentes com a minha “inteligência” e opiniões inflexíveis sobre tudo. Daqueles anos tenho lembranças que quase consigo tocar, como os invernos gelados, chá muito quente, livros muito velhos e livrarias inacessíveis, pois meu salário mal permitia manter corpo e alma juntos. Mas tenho saudade daquele tempo em que um universo inteirinho me esperava para eu desbravar. E abarrotadas estantes inéditas me aguardavam. Hoje, que eu compro mais livros do que consigo dar conta, até os invernos são diferentes.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

É meu!


Sou do tipo que empresta roupa, sapato, bolsa, acessório, eletrodoméstico, celular e xícara de açúcar. Tudo isso sem problemas, sem preocupação, sem prazo para devolução e sem o menor sentimento de posse. Mas basta alguém me pedir um livro emprestado para eu ficar cheia de brotoejas. Invento mil dificuldades e se o corajoso vence todas, finalizo ameaçando-o das penas do inferno e do meu ódio eterno se não devolver – e rápido. Ou seja, é mais vantajoso comprar do que ter que me aturar perguntando pelo livro, se já leu, se gostou e – se as respostas não forem satisfatórias – quando o terei de volta. Antes de ser injustamente acusada de egoísmo, lembro que gosto de reler e nunca sei quando vou querer exatamente aquele livro.
Mas até chegar a essa fase mais despachada e sem vergonha eu penei muito por livros que emprestei e nunca voltaram. Tenho até hoje um livro infanto-juvenil que emprestei a uma amiga e ela me devolveu com várias páginas assinadas com o nome dela! E cara de pau não tem limite: outro livro que emprestei a um querido amigo nunca voltou porque ele jurava que o exemplar era dele e não meu. Cansei de discutir e o risquei do caderninho. Brincadeirinha, somos amigos até hoje, mas como não sou desmemoriada, nunca mais ele conseguiu outro empréstimo. Outro exemplo, bem mais triste, foi um livro raro que emprestei a uma amiga, que por sua vez emprestou a outra. As duas brigaram, nunca mais se falaram e quem ficou chorando em alemão fui eu.
No meu primeiro ano de faculdade tive uma professora de sociologia e fiquei horrorizadamente encantada ao ver a sua estante, abarrotada de livros, com um pequeno cartaz que dizia exatamente “Não empresto livros, discos e fitas. Não adianta insistir.” E antes que alguém pergunte, sim, era o tempo do disco de vinil e das fitas cassetes, o tempo passa, uia!
Enfim, não fui iluminada assim tão rápido após ver a estante da professora, mas fui gradualmente perdendo a vergonha (vergonha deveria sentir quem pega emprestado e não devolve) e se não chego ao ponto de negar, também não facilito nadinha. Sei que é feio, mas o sentimento exagerado de posse é o único dos meus defeitos que não me constrange. Já os demais... Falo sobre isso outro hora.

A imagem é do livro de Telma Guimarães Castro Andrade.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Ensina-me a ler

Meu pai não chegou a completar o primeiro grau na escola. Mas lia Platão. Lia também Harper Lee, Orígenes Lessa, Malba Tahan, Érico Veríssimo e tantos outros livros que eu cresci vendo espalhados pela casa e também recolhia para decifrar. Meu pai tinha a caligrafia mais linda eu já vi, mas escrevia pouco. Nos vários anos em que morei longe dele recebi apenas uma carta (onde está? perdeu-se no tempo, na época não a valorizei, daria qualquer coisa para reencontrá-la.). Talvez por ter lido tanto na vida, ele se comunicava com extraordinária correção, sem erros de concordância. Na casa dos meus pais, mesmo com pouco dinheiro, sempre se pagou pelo menos uma assinatura de jornal. E mesmo tendo estudado pouco tempo, ou talvez até por isso mesmo, meu pai valorizava como poucas pessoas o conhecimento e a educação. Cresci ouvindo-o dizer que não estava aberta a discussão para a possibilidade de eu e meu irmão frequentarmos ou não uma faculdade. Ou iríamos ou iríamos, ponto final. E fomos. Ele teve o orgulho de assistir a colação de grau dos dois filhos.
Após o primeiro derrame que o acometeu, ele descobriu que não conseguia mais ler. Via as letras, mas não conseguia transformá-las em palavras. Lembro até hoje que ele e eu nos olhamos com absoluto horror no quarto de hospital, após ele ficar longo tempo olhando para uma página de revista que continha apenas um anúncio com letras enormes, erguer os olhos e menear a cabeça negativamente para mim.
Felizmente, com muita persistência, ele foi retomando e conseguiu voltar a ler, embora nunca mais com a mesma facilidade. Assinei várias revistas, comprei resmas de livrinhos de palavras cruzadas e procurei leituras mais fáceis. E ele foi se ajeitando como podia, lendo a mesma página várias vezes, até conseguir reter o sentido das palavras e a totalidade dos textos. Foi uma (mais uma) lição que o meu pai me deixou e hoje, 11 anos após ele ter nos deixado, ainda choro quando falo nele e o recordo com intensidade quando leio algo que sei que ele gostaria. Mas uma certeza eu tenho: ele só morrerá de verdade dentro de mim se algum dia eu deixar de ler.